A música como refúgio e o silêncio como companheiro.

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O segredo da grama verde do vizinho

Já perceberam quanto precioso tempo de nossas vidas perdemos admirando o gramado do vizinho? Ele realmente é mais verde que o nosso? Por que ficamos maravilhados com essa grama, cheia de vida, bem aparada, sem qualquer falha em sua superfície? Por ser um verdadeiro espetáculo?

Ao sairmos para o trabalho, ‘ele’ e sua grama estão ali presentes. Alguns diriam até que estariam ali propositadamente, para nos afrontar e nos dizer que não somos bons o bastante. Pensamos então: só não somos tão bons e possuímos uma grama assim verde porque não fazemos as coisas obscuras que ele faz. Se fizéssemos 'aquilo', ah! seria muito fácil! “Mas conosco não!... Fazer aquilo? Nunca.” Então, tudo o que esse vizinho faz para ter uma grama tão verde só pode ser fruto de alguma atividade escusa, imoral, ilegal ou o mais provável, anormal. “Como pode haver uma grama verde assim de forma natural? Hum”.

E com um sorriso amarelo lhe desejamos um bom dia, escondendo um pouco nossa desconfiança – um pouco, afinal de contas não vai esse vizinho achar que nos faz de bobo, porque já tem muita gente sacando que há alguma coisa errada com aquela graminha sem vergonha. A desconfiança já se espalhou pelo bairro.

Um aperto de mãos ou um tapinha nas costas desse suspeito vizinho até seria interessante. Quem sabe ganharíamos sua confiança. Sentindo-se à vontade, ele poderia 'se abrir conosco' e, finalmente, saberíamos o que ele está cometendo para obter uma cor dessas em seu jardim. E, pimba! Nós o teríamos nas mãos. Conheceríamos o tão escabroso segredo. Sairíamos com vantagem sobre os vizinhos dos outros bairros que não sabem de nada e poderíamos nos vangloriar por saber o segredo da pungente grama verde, mantido recôndito, provavelmente, sob uma montanha de chaves e mais - aí vem o melhor de tudo - poderíamos pulverizar a estória por toda a cidade, quem sabe por todo o país, não sem antes agregar um temperinho exótico para se tornar um pouco mais picante, ganhar um sabor pitoresco e, ainda, nos tornar interessantes ao contá-la. Até já podemos ver as manchetes nos jornais: “Extra, Extra! Operação grama verde esquenta debate sobre pena de morte!”

Logo o tempo começa a ficar nublado na vizinhança. Uma garoa de metáforas paira sobre a grama verde e linda do vizinho. Nós, vizinhos honestos, com ar puro e inocente, soltamos ao vento uma ou outra frase que julgamos somente entendida por nós (que não temos a grama tão verde) para deixar esse vizinho metido à besta (e que acha que somos tolos a ponto de acreditar que essa grama verde é merecida e fruto de seu trabalho) imerso em um sentimento desconfortável, para que ele perceba o quanto está errado, afinal, todo mundo está com a grama que é um horror.

Chovem comentários sobre a grama verde do vizinho. Ao dobrar uma esquina encontramos alguns vizinhos e no meio da conversa, como quem não quer nada, o tema germina: “vocês já viram aquela grama?” Em meio a uma ligação telefônica, outros buscam as raízes da estória: “Que grama é aquela?”... “Não deve ser boa coisa!”... “Aquilo! Aquilo é coisa para ficarmos de olho!”... “Deixa ele ficar se achando... quero ver a cara dele quando descobrirmos e ele for desmascarado em praça pública!”... “Não demora muito aquele verde ofuscante vai virar um belo amarelo queimado”!

Cai na rede a estória da grama escandalosamente verde e em e-mails mais escabrosos brotam dúvidas sobre a autenticidade, procedência, eminência e subserviência da mera, porém provocadora grama. Alguns prometem até imagens de uma relação orgânica e incestuosa com o desgramado possuidor.

E o vizinho 'criminoso' (sim, criminoso, porque suspeito era quando somente nós achávamos essa grama mais verde que a nossa, mas agora tem muita gente graúda que acha! O síndico do prédio da esquina, outro dia, comentou que nunca havia visto grama com uma tonalidade tão falsamente pretensiosa como aquela)... Onde estávamos mesmo? Ah! Estávamos cochichando: e o vizinho criminoso começa a perceber a mudança climática ao seu redor. Os vizinhos mais chegados, da extrema direita e o da extrema esquerda, vêm lhe avisar que ouviram de um vizinho distante que há um comentário envolvendo a origem de sua grama e de sua frondosa cor. "Que ela é ligeiramente mais verde, possivelmente mais viçosa... hum... Puxa! Não deveríamos falar, mas como seus vizinhos de extrema, é melhor nós lhe contarmos: o comentário é que essa grama é assim verde porque foi concebida através do cruzamento fortuito da grama sem vergonha da casa da luz vermelha...” (na beira de uma estrada bem afastada dali) “...com a grama tirana da fazenda de um coronel da cidade rural vizinha” (conhecido mandante de crimes contra a flora nativa e que deixava, religiosamente, seu cavalo amarrado sobre o pasto daquele, por assim dizer, alcoice).

O vizinho do gramado mais verde nada entende. “O que há de errado com minha grama?” Pensa. Ele se quer consegue se lembrar da cor da grama dos outros vizinhos. Como poderiam sair por aí comentando sobre a dele? “O que há de errado em ter um gramado bem cuidado?”

Essa historia poderia ir longe. Poderia até virar uma novela das oito. No horário das seis certamente não caberia, em virtude das cenas de violência que deveriam ser introduzidas para tornar a grama, digo, trama interessante e que não são permitidas neste horário, dada a faixa etária que atinge – talvez por esse segmento de espectadores do gramado alheio ainda não saberem avaliar a cor da grama do vizinho e as maneiras pouco ortodoxas de deixá-la tão assustadoramente verde.

Mas o final não seria nenhum campeão de audiência. Lançados à lama, o tão visado vizinho e sua ainda memorável grama, tiveram suas vidas devastadas por uma minuciosa investigação que revelou uma paisagem serena e que sempre esteve ao alcance de todos nós.Tudo aconteceu porque, diariamente, antes de nos debruçarmos na janela para admirar a famosa grama, nosso vizinho já a havia regado e retirado as folhas secas. Ao passo que deixávamos a soleira e íamos ao telefone comentar com outro vizinho sobre a suspeita cor do jardim alheio, ele voltava com uma pequena ferramenta de jardinagem e tirava uma quase imperceptível erva daninha, que poderia ameaçar uma minúscula área de seu jardim. Durante a discussão (na esquina) sobre as possíveis nuances do verde nos gramídeos, a grama do vizinho recebia tratamento com adubo orgânico. Enquanto tentávamos abrir os arquivos que nos foram enviados e que prometiam imagens escabrosas, o temido vizinho conectava a uma velha torneira, uma mangueira surrada, mas que levava água cristalina àquele tapete natural.

Inertes, ainda incrédulos e vitimizados – "como Deus pode conceder uma grama tão vivinha para uns e apenas palhas, completamente secas, para outros?" - ali parados, mais uma vez admirando aquele jardim sobre onde pairavam tantas dúvidas, tínhamos certeza que havia algo a ser aprendido por todos nós vizinhos de bem. Um silêncio sublime percorria aquele momento fecundo, prestes a nos dizer o que nossas bocas, desde a primeira contemplação do jardim dos nossos desejos, jamais proferiram. Neste instante, neste paradisíaco instante, chegou o vizinho arruaceiro da praça em frente à casa do vizinho da grama mais verde do bairro, enfurecido com o desfecho de toda esta estória e gritou: "Vá estrumar na grama, cultivador desgramado, figo de uma maldita figueira, regador de gramas do inverno!"
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Foi-se o clima. A grande revelação, o vento levou... perdeu-se, quiçá, a oportunidade de colher a semente que poderia disseminar o verde espetacular nos gramados de todos os vizinhos presentes e nos daqueles que viessem a saber dessa fabulosa estória, por fonte fidedigna.
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E todos viveram infelizes para sempre!