A música como refúgio e o silêncio como companheiro.

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Meu amigo, meu dilema


Tenho um amigo que é uma figura. Gente muito boa e adora beber. Tudo é motivo para isso. Basicamente, se ele está triste, bebe para esquecer. Se está alegre, bebe para comemorar. Se o tédio bate, ele me diz: "tem coisa melhor para passar o tempo, sem fazer qualquer esforço"?

Eu não sei como, se posso ou devo ajudá-lo, ou se é melhor eu ficar na minha e deixar que ele curta a sua vida como ele acha que deve curtir. Afinal, ele tem todo o direito de fazer o que bem entender, pois é isso que todos fazemos.

Fico pensando no que eu poderia falar para que ele dê uma maneirada, coisas como: “teu corpo é o maior bem material que poderias ter” ou “deves tratar bem esse templo, para que ele permaneça erguido. Deus habita nele”. Não gostaria que minhas palavras soassem como julgamentos morais, tampouco como apenas preocupações ou presunções de que eu sou tão bom que posso me julgar capaz de aconselhar sobre a vida de outrem, mas, às vezes, creio que uma palavra amiga pode ajudar.

Pensei em dizer que meu amigo é um ser único, com peculiaridades que faz dele uma pessoa muito especial. O que é verdade! E que muitos desses traços tão característicos é que lhe permitiram chegar aonde ele chegou e que quanto mais identificados e tornados conscientes, mais longe o levarão.

Diria que é muito agradável estar perto dele, quando ele está, simplesmente, do jeito que ele é. Que seu sorriso fácil alegra e que sua alegria contagia. Que é uma pessoa com uma energia muito boa... Ah! Se ele se percebesse... Se ele descobrisse como ele é, sem aqueles discursos oriundos do ego, que só servem para lhe defender de ameaças que existem apenas em sua cabeça.

Exclamaria: deixe-se SER! Deixe-se ser quem você realmente é! Um ser único, de luz própria como todos os outros. Muitos de nós ainda não permitimos que a luz interior seja contemplada pelos demais. Talvez por medo de não sermos aceitos. Talvez por não termos tido oportunidade de receber amor ou reconhecê-lo, não tê-lo vivenciado ou aprendido. Muitos são criados por crianças crescidas que também não tiveram como experimentar amor e confiança.

Eu falaria também para ele não se revoltar com quem não entende as suas idéias e posições. Cada vez que isso acontecer, ele poderia procurar onde residem as suas próprias limitações, dedicar-se ao que ele ainda não entende sobre ele mesmo e o que lhe custa aceitar.

Eu lhe mostraria que ele não está só nesta jornada. Todos temos nossos dilemas. Eu lhe contaria minhas crenças. Que estamos aqui com um objetivo. E que procurar o seu objetivo nesta vida pode já ser o seu. Diria que a vida é, realmente, uma festa. Mas como toda boa festa, ela tem seus momentos de planejamento, organização, diversão e todo o trabalho para retornar à rotina. O maior aprendizado é manter-se inteiramente presente em todos os instantes. É “chegar junto”, sempre.

Eu tentaria me aproximar da realidade dele. Lembraria que a espera da melhor onda pode ser longa, enquanto estar sobre a melhor onda que já se pegou pode durar apenas alguns minutos, mas é desse breve tempo que ele irá se lembrar por toda a vida como sendo um dos lances mais incríveis que ele já teve e só o teve porque soube que a espera seria recompensada. Se não soubera, já intuía.

Eu lhe asseguraria que queria ter estado mais tempo na sua companhia. Que gostaria de ter feito mais coisas com ele; que ficaria feliz ouvindo seus planos e se tivesse compartilhado do prazer da realização de seus projetos. Como eu me sentiria bem em saber que estive presente durante, pelo menos, parte daquele feito que lhe foi tão importante.

É meu amigo, o tempo passa e, em algumas ocasiões, a vida parece ser muito curta, muito injusta, muito sem sentido. Todos, em algum momento, temos essa impressão. Não, eu não creio que os bons têm menos tempo por aqui e que os maus teimam em permanecer, como certa vez me disseste. O que acontece é que nós insistimos em focalizar o lado menos significativo. Como se a gente tivesse um mecanismo que nos pudesse lançar com segurança para o outro lado do mundo, mas permanecemos olhando, desconfiados, para uma pequena peça da engrenagem que nos parece meio torta. Levamos tempo para perceber que, se essa peça não fosse do jeito que é, a alavanca não nos lançaria tão longe.

Afirmaria que, às vezes, somos limitados por nossos sentidos e podemos ser levados a uma viagem química, na tentativa de minimizar ou extrapolar essas limitações. Mas existem outras fórmulas, com riscos menores e com ganhos incomensuráveis. E se somos nós que sofremos as conseqüências de todos os nossos atos em primeiro lugar, por que não pensar?

Precisamos ser racionais sim, cartesianos para o nosso bem. Há momentos para analisar cada passo a ser dado, detalhadamente, como uma atleta de ginástica, que após estudar minuciosamente cada fração de seus movimentos, abandona-se, deixa-se levar para o salto da vitória, para então permitir que a emoção tome conta.

Eu diria que a vida pode parecer uma história com final trágico, se focalizarmos apenas o final que conhecemos, mas, perguntaria: e todos os momentos significativos que permeiam o caminho? Isto não faz valer à pena a caminhada?

Eu lhe avisaria que é normal se sentir meio perdido, meio inadequado, pouco compreendido. Quem não tem seus momentos de “o que é que eu estou fazendo aqui?” Tudo tem a sua hora. E por que não aproveitar a juventude para começar a estruturar uma vida adulta que nos satisfaça? Não seria o momento de iniciar o desenvolvimento integral das potencialidades que permitem tirar proveito de toda a nossa plenitude, se não fomos incentivados para isto desde crianças? Ah! Asseveraria também que em todas as fases da vida isso pode ser feito e que se deve começar quando nos damos conta de que é chegada a hora. “Ei! Chegou a hora!!” (ouça sua voz interior).

Enfim, diria coisas apenas que o fizesse refletir sobre a vida que deseja levar ou a forma de encará-la e encerraria com um "Deus te abençoe e que esteja sempre contigo, que te proteja!" - não só porque ele é filho Dele, mas porque esse meu amigo é importante para mim.