A música como refúgio e o silêncio como companheiro.

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Brasil: um país de muitos verbos e poucos predicados

Lendo algo sobre o movimento CANSEI – digo “algo” pois logo acabei perdendo o interesse, em virtude de comentários dizendo se tratar de movimento partidário de direita, ou outra direção qualquer (sempre tive dificuldade com esse tipo de orientação) – fiquei pensando nesses verbos e sujeitos que transformam o cotidiano brasileiro em objeto de uma verdadeira dissertação do descaso e constatei como me sinto em relação a tudo isso. E sinto muito!

Sinto muito pelas pessoas que não têm direitos e que são desrespeitadas, muitas vezes até em nome do rigor da lei. E eu me pergunto: quem são os nossos legisladores que vivem impondo novas normas aos demais? Não seriam aqueles mesmos que as usam para se beneficiar e, depois, com ar superior, alegar que estão seguindo à risca os preceitos legais – como se isso garantisse alguma coisa, que não, geralmente, apenas benefícios tão peculiares e pecuniários?

Evito conjugar o verbo odiar na primeira pessoa, mas como não usar o verbo revoltar contra todas essas pessoas e situações? Sim, eu estou cheio de perguntas, mas também cheio de suspeitas. Suspeito, por exemplo, que um agente público ao determinar uma nova regra que envolve investimento, somente o faz para que algum parente ou amigo, ou os dois (provavelmente, os três) sejam beneficiados financeiramente com a medida. Parece até que a idéia da implementação da nova e mirabolante “norma” não está fundamentada na finalidade alegada, porque muitas vezes esse fim pode ser atingido com simples mudanças de atitudes ou módicos recursos, mas, “plantada” pelos interessados nos ganhos financeiros e contando com ajuda da ingenuidade (ou enfado alheio), tem um único fim: o de lograr recursos financeiros públicos, que poderiam ser melhor aplicados na conquista da cidadania, com dignidade, respeito e responsabilidade social. A propósito dignidade e respeito são ótimas palavras para compor discursos, mas no transcurso da gestão administrativa constituem compromissos (ou apenas promessas?) continuamente aviltados. Quais as conseqüências (indesejadas) desses atos? Responsabilidade social? Quem sabe o que é? Tenho uma certeza sobre responsabilidade social e sou obrigado a dizer: o mais fraco (o que tem menos contatos e aliados) sempre leva a pior. Mas isso não está importando a ninguém.

E as medidas são sempre plenamente justificadas – é claro, quando não há arrogância a ponto do Administrador pensar que “suas” idéias são sempre as melhores “sacadas” que alguém poderia ter e, portanto, não necessitam de justificativa alguma – “são óbvias” (e só ele as poderia ter). Também me revolto contra o óbvio! Eis uma coisa que eu poderia dizer que odeio: o óbvio que ninguém quer falar ou tratar por não dar lucro algum!

Não é por falta de contato com o mundo desenvolvido que as coisas estão do jeito que estão. Afinal, nossos “comandantes” de todas as esferas estão sempre viajando, para estar em contato com sociedades que deram certo. Engraçado, se não fosse ridículo. Que pessoas são essas que vão verificar modelos de gestão e desenvolvimento em áreas críticas como saúde, educação e segurança? Maravilhados, aqui chegam e não conseguem implementar um programa sequer que não resulte em desperdício e falta de resultados. Já é sabido que conjugar qualidade e economia de recursos é uma dificuldade de nossos administradores públicos. Somos um país que está dando errado ou estou míope? Mais perguntas...

Enquanto isso, pessoas de bem e que lutam por seus objetivos com ética e dignidade, são cada vez mais vítimas de uma realidade cruel, beirando à barbárie, onde todo mundo quer se dar bem, a exemplo daqueles amantes do poder, hipócritas e sádicos que deveriam ser modelos para os demais e que parecem sentir verdadeiro prazer em submeter o semelhante às suas decisões soberanas. Detalhe importante: isto já está fazendo escola e qualquer chefezinho já está achando que pode tratar seu subalterno praticamente como seu escravo, sem direitos, afinal "já não está ganhando o pão!?" Nem vamos entrar pela seara da política da opressão. Somos animais muito perigosos, atacamos nossa própria espécie e precisamos de valores para manter uma convivência sã.

Cansar? Não podemos. As coisas podem ser diferentes e iniciam com pequenos gestos em nossa casa, em nosso trabalho e com novas atitudes. Caso contrário cenários apocalípticos, antes vistos em obras de ficção, serão nossa realidade – já não encontramos lugares reais em nosso país que beiram o ilustrado por Mad Max? Esperar que surja, repentinamente, consciência do coletivo naqueles que só conseguem pensar em si próprios é praticamente cruzar os braços e esperar o caos.

[continua]