A música como refúgio e o silêncio como companheiro.

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Julgo diário

Eu não me recordo se existe entre os dez mandamentos "não julgarás", mas é um dos que eu tento seguir. É um exercício constante, porque percebo que sou levado a isso desde os tenros anos de minha infância. É comum (e até incentivado) olhar para a vida alheia e, como forma de alívio e de uma falsa autovalorização, ver as vantagens compensatórias em relação aos outros: “Bem, pelo menos não sou aquele coitado!”

Não fico muito a vontade quando sou julgado e por isso, talvez, esforço-me para não cair em tentação. (Lembro de meu amigo psicólogo dizendo “não se esforce, só se dê conta...” estou no processo, companheiro...) Pior é perceber que muitos desses julgamentos cotidianos têm suas bases fincadas nos estereótipos mais execráveis, como se todas as mulatas tivessem samba nas veias, todos os homens que sentem atração sexual por congêneres fossem alegres e carnavalescos ou toda pessoa com alguma necessidade específica seja incapaz de ter um dia-a-dia em que não se sinta prisioneira de sua diferença. É claro que o sistema força a perpetuação desses modelos surreais (E como força!).

Aviso: não adianta querer argumentar com quem insiste em julgar, porque sempre usarão as palavras que você proferir em sua defesa contra você. Eu sei disso. Há uma insistência tão grande em ter razão, que o “juiz” não vê nada além de suas pré-elaboradas imagens. E tem mais: ainda responsabiliza o objeto por passar essa imagem. Não se atreva a gastar seu latim com questões óticas, como imagens dependem do foco que se dá a elas, porque o “juiz” sempre tem razão: só existe um certo (que é como ele pensa) e todo o resto está errado.

Argumentos nunca são suficientes para o Meritíssimo. Não. Também não tente convencê-lo a basear seu julgamento nas ações de seu “réu”, porque ele só consegue ver ações que visam persuadir seus olhos das “verdadeiras” (leia-se sinistras) razões movendo o pobre coitado que teima em provar que não é culpado. Como pitada de sua lógica transcendental, tem-se aqui dois exemplos de casos levados à corte: se você estiver aberto a discutir drogas em seu ambiente familiar e defender essa discussão como um dos mecanismos para deixá-las longe de seu lar, certamente o “juiz” dirá que você está fazendo apologia ao uso dessas substâncias. Outro: se você não se exime de responder aquela pergunta ruborizante de contexto sexual, ainda que pego de surpresa pelo seu filho menor, é claro que, na verdade, você está incentivando-o ao sexo livre e a “traçar” todas as garotas que cruzarem seu caminho desde já.
“Imagina falar sobre isso em casa! É um depravado que deveria ser monitorado. Chip nele!”.

Ah, não se pode esquecer de seus vaticínios, afinal "juiz" que se preza sempre espera o tempo que for necessário por um momento de queixa daquele que ousou ter uma opinião contrária a sua para tascar, com prazer orgástico, a frase de três palavras que mais ama dizer “Eu não disse???”.

Pfff. Às vezes eu me canso de ser julgado. Antes “eu chutava o balde”, agora procuro a estabilidade nas sábias palavras: "o pior maluco é aquele que acha que não é maluco". Já desconfio de quem tem muitas certezas sobre a vida (olho o meu julgamento aí, gente!). Eu estou cheio de suspeitas. Leio, pesquiso, observo, questiono e aos quarenta e poucos anos tenho cá minhas dúvidas a meu respeito, enquanto os outros já têm tantas certezas sobre mim. Será que tenho algum problema de QI, QE... que qu’é isso, ô?

Tenho que me policiar sim, porque é tanta “pressão ideológica” que às vezes me pego falando absurdos como “quero distância de pessoas do signo de escorpião”; ou com um pensamento indizível “meu Deus, por que aquela criatura não pára de comer e entra em uma academia?” ou “coitado do velhinho!” (só porque já não tem a minha idade) e que dão início a uma batalha de pensamentos que vêm em minha defesa para eu não me sentir um otário e não me admitir preconceituoso.

É uma luta árdua entre sentimentos e pensamentos que causam sofrimento sim, até que eu encontre alguma solução. (Dizem que sofrer faz crescer). Não, eu não sou candidato a Santo. Perco muitas vezes essa batalha. Mas me esforço. E mais uma vez procuro me consolar em quem está em uma situação que “julgo” pior que a minha. Em quem encontra o justo tirano e não tem se quer a chance de ser desprezado por suas idéias ou desejos, pois sua configuração física chega primeiro, sobrepondo-se a seu caráter e todo resto vira uma luta desumana. Será que somos treinados para nos consolar desse jeito ou é só mais um mecanismo prestes a entrar para o rol dos distúrbios mentais da O.M.S.?

É claro que eu não vou proferir nenhuma “sentença”, afinal estou aqui me esforçando para vencer meu julgamento. Quem sabe seria melhor abandonar os argumentos, os fatos e ficar apenas com as pistas. Essa que indica que o julgamento de outrem vem atender uma pulsão de consolo próprio parece ser bastante elucidativa e não diz respeito à vítima ou ao réu. É Meritíssimo, quando fores atuar, não ouças testemunhas antes de entenderes quem e o que realmente está sendo julgado.

Arquivem-se os autos.

(Ainda cabe recurso).